segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Use isto ou livre-se


Quando estudei inglês no Canadá a professora canadense Vivienne comentou que quando criança aprendera algumas palavras em português. No entanto, por não conversar nesta língua, esqueceu-se da maioria do vocabulário do idioma. E avisou a nós, alunos de inglês, “Use it or leave it” (algo como “use isto ou livre-se”).

Foi nesta mesma época que eu comecei a pegar alguns livros na língua inglesa. Lembro-me do livro chamado “Rainforest”, o que para nós significa a Amazônia. O livro de fácil leitura me mostrou a diversidade encontrada naquele tipo de floresta – que existe em outras partes do mundo como Ásia, Austrália e África.

Fiquei surpresa ao saber, lá no Hemisfério Norte, que a Amazônia possui de 5 a 7 mil espécies de animais vertebrados, 15 a 20 mil espécies de plantas superiores e 1 milhão a 10 milhões de animais invertebrados. E que lá sobrevive uma população indígena de 256 mil pessoas que falam entre 170 a 180 línguas diferentes.
O mais interessante foi aprender como funciona a floresta, na qual chove praticamente todos os dias e possui um clima quente e úmido. A dificuldade para a entrada de luz pela abundância de copas faz com que a vegetação rasteira seja muito escassa na Amazônia, bem como os animais que habitam o solo e precisam desta vegetação. A maior parte da fauna amazônica é composta de animais que habitam as copas das árvores, entre 30 e 50 metros. Entre as aves da copa estão os papagaios, tucanos e pica-paus. Entre os mamíferos estão os morcegos, roedores, macacos e marsupiais.

O solo amazônico é bastante pobre, contendo apenas uma fina camada de nutrientes. Apesar disso, a flora e fauna mantêm-se em virtude do estado de equilíbrio atingido pelo ecossistema. O aproveitamento de recursos é ótimo, havendo mínimo de perdas. Um exemplo claro disso está na distribuição acentuada de * micorrizas pelo solo, que garantem às raízes uma absorção rápida dos nutrientes que escorrem a partir da floresta, com as chuvas. Também forma-se no solo uma camada de decomposição de folhas, galhos e animais mortos que rapidamente são convertidos em nutrientes e aproveitados antes da **lixiviação. A diversidade de frutas e animais é gigantesca e por causa disso é que a “Rainforest” é conhecida pelos gringos como “jewels of the Earth” e “world's largest pharmacy” (Jóia da Terra e Maior Farmácia do Mundo, respectivamente).

Parece que os gringos estão mesmo interessados no assunto, 37% dos artigos científicos sobre a Região têm pelo menos um autor brasileiro. Há 20 anos, o ex vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, afirmou: “ao contrário do que os brasileiros acreditam a Amazônia não é prioridade deles, ela pertence a todos nós”. A Amazônia será tema da 15ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (CPO-15) que irá ocorrer entre os dias 7 a 18 de dezembro em Copenhague neste ano.

Parece que a professora de inglês estava certa. Se nós, brasileiros, detentores da maior parte (60%) desta riqueza natural que é a Amazônia, não a utilizarmos de forma correta, através de pesquisas e combate ao desmatamento, os países desenvolvidos tomarão conta. E depois não digam que eu não avisei o ditado muito comum dos gringos: “Use it, or leave it”.


* Micorrizas – é uma associação simbiótica entre certos fungos e raízes de algumas plantas.
** Lixiviação - é o processo de extração de uma substância de sólido através da sua dissolução num líquido.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Crônicas

Olá pessoal, as crônicas a seguir foram veiculadas no jornal Tribuna de Uruguaiana. Sou colaboradora do jornal desde o ano passado, quando começou a circular. Quanto às crônicas, faz seis meses que escrevo semanalmente para o jornal. Matérias jornalísticas de minha autoria também são veiculadas pelo periódico, mas ainda não são postadas aqui por se tratar de assuntos locais.

Acompanhem o blog:

http://tribunadeuruguaiana.blogspot.com

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Livro para todos os lados


Na última quinta-feira comemorou-se o Dia Nacional do Livro e na sexta-feira começou a 55ª Feira do Livro de Porto Alegre. Outubro é livro para todos os lados, quem sabe é hora de recordarmos nossas melhores leituras, ou até mesmo começar a ler aquele livro que há tempos estamos namorando. Lembro-me que Menino de Engenho de José Lins do Rego foi um dos primeiros livros que li na época da escola. Era encantador o modo como o autor narrava a vida simples do engenho. Quase sentia o gosto do leite que o personagem principal tomava.
Já a Feira do Livro de Porto Alegre é algo um tanto mágico para mim. Quando morava na capital na época da faculdade fazia questão de ir com minhas amigas até a feira. É delicioso visitar um evento a céu aberto na calçada da Praça da Alfândega que reúne gente de tudo que é raça, credo, cor e idade. Neste ano, a feira que segue até 15 de novembro, além dos 160 expositores desta edição, apresenta diversas atrações paralelas: a sessão de autógrafos, oficinas, mesas redondas, sessões de cinema gratuitas e comentadas, seminários, saraus. Além de atividades relacionadas ao país homenageado neste ano, a França e o Estado homenageado, Santa Catarina. Com certeza vou dar um jeito de dar um pulo até lá, mesmo que seja um “pulo” de mais de 600 km.
Até lá, ficarei recordando os momentos felizes que passei nas outras Feiras do Livro. Uma vez participei de uma palestra sobre crônicas que fazia parte da programação do evento. Os palestrantes eram os jornalistas David Coimbra, Claudia Laitano, Cristiane Finger, Paulo Santana, dentre outros. Eu não era muito fã do Paulo Santana, mas quando ele pegou o microfone, cantou, falou com emoção sobre escrever crônicas, vi o tamanho de seu carisma e potencial de comunicador. Foi muito calorosa sua explanação.
Outra vez fui até a feira com a Kathy, ela trabalhava na ala infantil do evento vestindo-se de palhaça para a menina. Após trabalhar, fomos tomar algo no Cais do Porto, ainda na área infantil. Quando ela veio com duas taças de champagne eu só tive que prestigiar o resto, o ambiente que era super descolado, com mesinhas bonitas e muita gente jovem, além do pôr-do-sol no lago Guaíba que estava ao nosso lado. No outro dia, fui sozinha correndo até a feira comprar um livro, já que no dia anterior foi só festa.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Dia do Vai à Merda

Um dia estava falando com uma amiga pelo telefone e concordamos que hoje em dia a vida de nós, mortais, principalmente as mulheres, não é nada fácil. A gente quer ter um trabalho legal, um emprego que pague bem, quer um namorado bacana, quer também ter hobbies como andar de bicicleta até o aeroporto ou fazer pinturas em caixinhas de MDF. Queremos ter amigas animadas e que tenham tempo para a gente. Além disso, queremos estar em forma, com o cabelo bonito e as unhas feitas. Ufa! Aja tempo, dinheiro e disposição pra tudo isso. E quando não temos tudo o que mencionei acima, parece que sempre tem uma coisinha faltando. Ser humano é bicho brabo, já dizia uma senhora que trabalhava com a minha avó.
Quando nós, sexo “frágil”, conquistamos nossa independência, nunca imaginaríamos que mais trabalho teríamos ao sair de casa; afinal ser gerente de uma empresa e ter uma família para cuidar exige muito mais do que só ter filhos para criar. Fora isso, queremos estar sempre bonitas, mesmo que lá em casa o guarda-roupa esteja uma bagunça e que a gente esteja devendo no salão de beleza e que o clima com algum parente não esteja dos mais tranqüilos. Na realidade, nesses mundos modernos, parece que o mundo lá fora exige de nós cara de Monalisa eterna, mesmo quando nada vai muito bem, como se nunca pudéssemos descer do salto alto e relaxar.
Pensando nisso, eu defendo a criação do Dia do Vai à Merda. Acordou com preguiça e não sabe o que usar nos pés para ir ao trabalho, coloca aquele sapato sem salto, bem confortável, lavou o cabelo e não acha a chapinha, inventa um penteado novo ou aceita de vez esse cabelo encaracolado. Sua amiga que sempre te procura apenas quando briga com o noivo, te fazendo ouvir todas as histórias por horas, manda ela catar coquinho no asfalto. O colega de trabalho que sempre solta piadinhas inoportunas para você, fala para ele que vá cuidar daquela pança enorme. Teu namorado sai para jantar contigo e fica de papo com o amigo que está junto e a deixa em segundo plano, beija ele depois de comer aquela pizza cheia de alho e óleo.
O Dia do Vai à Merda será o dia mais feliz de todos nós. Abaixo os engomadinhos, engravatados e suas maletas. Fora as poses, o exibicionismo e o gel. A vida é muito curta para levarmos ela tão a sério.

O realismo estampado num filme


Há filmes que não são de todo bons nem ótimos, mas que valem a pena serem assistidos, seja pelos seus diretores, sua fotografia, trilha sonora ou atores. Para mim, se algum desses ingredientes mandar bem na película, já está valendo. Mas não foi bem isso que aconteceu quando assisti “Margot e o Casamento” do diretor Noah Baumbach (2007).
Durante os 95 minutos do longa-metragem, era difícil se familiarizar com aqueles personagens frustrados, aqueles adultos inseguros e infantis. Ao longo da trama, ia me dando conta que o que dizia na sinopse, atrás da capa do DVD, não tinha nada a ver com o que imaginara. Quando aluguei “Margot e o Casamento” achei que o filme contaria, de uma forma doce e prazerosa, a relação de duas irmãs que não se viam há tempos. Que nada, que erro.
Duas irmãs se reencontrarem na casa onde moraram quando crianças e que uma delas morava atualmente com o futuro marido. Ambas se dão bem em partes. Quando Margot (Nicole Kidman) está a sós com seu filho (Zane Pais), fala mal da irmã e dedura a mesma ao adolescente. O futuro marido de Pauline, Malcolm (Jack Black) é um artista frustrado, que não sabe o que quer da vida e parece mais uma criança sonhadora. Pauline (Jennifer Jason Leigh), por sua vez, é insegura e fica incomodada com os comentários maldosos da irmã sobre seu futuro casório. E assim, o filme se desenrola mostrando o relacionamento entre familiares.
A cena que mais me chamou a atenção é quando Margot critica gratuitamente seu companheiro filho, fazendo-o chorar. Noutra cena, mais adiante, a mesma diz que naquele momento em que o criticou nunca havia o amado tanto.
O filme não era nada do que eu pensava, tampouco algo doce e prazeroso. Mas segui até o final, vendo Kidman num personagem nada glamourioso como os de costume. Sua personagem é uma escritora controladora e neurótica.
“Margot e o Casamento” mostra a condição humana, as fraquezas de um modo nada dramatizado. As relações familiares tais quais elas são, com seus altos e baixos. Num dia-a-dia que mal percebem o quanto se amam. E foi exatamente isso que achei interessante na película, a sua realidade exacerbada. Tudo tão verdadeiro, quando a arte realmente imita a vida.

O prazer de “cronicar”

Vou confessar a você, que há dias que ando inspirada, seja por algum acontecimento que me comoveu ou algum fato sobre nosso país que me instigue a falar ou questionar. No entanto, há outros que a gente não tem nenhuma opinião formada sobre algo realmente interessante. Mesmo assim, escrever uma crônica sempre é prazeroso.

Quando não tenho um tema em mente, abro o Microsoft Word ou pego minha caneta e papel, e logo as palavras começam a surgir, a opinião, de repente, dá lugar a um vácuo que parecia existir. O texto logo preenche o branco do papel, e os sentimentos, sejam eles, de nostalgia, amor, decepção, dúvida ou entusiasmo vêm à tona. Tudo começa a fluir num instante único.

Crônica, segundo o dicionário, “é um tipo de texto jornalístico redigido de forma livre e pessoal”. A crônica, diferente de uma matéria jornalística, nem sempre trata de um fato, e quando o faz, mostra, mesmo que implicitamente, a opinião do autor. Não há regras, e sim, muita criatividade e estórias.

Foi na época do colégio que li a primeira crônica. Era da escritora Martha Medeiros, uma perita na arte de redigir sobre questões do cotidiano de uma forma envolvente. Em seguida, conheci os textos de Paulo Santana, Luiz Fernando Veríssimo e David Coimbra. E depois as do Jabor, Diogo Mainardi e Lia Luft. Cada um com seu estilo, seu jeito de abordar o tema e sua forma de prender o leitor.

Não está no Aurélio, mas crônica para mim, é uma forma de me expressar, de dividir questionamentos, vivências e opiniões. É na crônica que o leitor, de uma maneira ou de outra se percebe, se rebela, se esclarece, se questiona ou se emociona. Fico imaginando o leitor lendo e rindo, questionando, crescendo ou até chorando. Tantas emoções que umas pequenas linhas podem suscitar.

Uma vez me falaram que me exponho muito em minhas crônicas. Nem liguei, porque sei que esse é o (ínfimo) preço dessa atividade maravilhosa de “cronicar”.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Independência ou Morte

Há 187 anos atrás, o Brasil tornava-se independente da Corte Portuguesa através da decisão de permanência do Príncipe Regente, D. Pedro I na antiga colônia. O grito “Independência ou Morte” marcou o rompimento das uniões políticas entre Brasil e Portugal.

No próximo dia 7 de Setembro, o Brasil pára num conveniente feriado para celebrar esta data importante. Porém, fico a me perguntar se nosso país é de verdade independente. A começar pelos nossos políticos, sabemos que um depende de outro, se um abre a boca e revela os atos corruptos de seu colega, pode ser alvo de denúncias. ‘Rabo preso’ não é independência. Um partido que tem ideologias totalmente distintas do outro e precisa do mesmo para ganhar votos e eleger seus candidatos. Isso não é independência.

E quanto ao povo, que é de fato, a cara de nosso país. Quando jovens deixam o Brasil para morar noutro país, por falta de opção, como o exemplo de uma amiga que mudou-se com a família para o Canadá, pois havia sido sequestrada mais de uma vez no Brasil. Falta de escolha não é independência. Pessoas que dependem de uma fila gigantesca para serem atendidas pela rede pública de saúde, com falta de funcionários e leitos. Famílias que dependem de R$ 90,00 do Bolsa Família para ter uma vida bem menos que digna, trabalhadores que perdem horas em filas do banco para receber seus salários, engolindo seco a angústia da espera por um atendimento. Crianças sem transporte para ir à escola, outras sem vagas nas escolas de rede pública, idosos sem remédios que custem o que suas aposentadorias permitem, ruas sem segurança e polícia, estradas mal sinalizadas, justiça que não funciona, trabalhadores quase que escravizados.

Liberdade é quando se pode escolher entre várias opções: o ruim, o mais ou menos, o bom e o ótimo. Quando podemos escolher somente entre o mais ou menos e o ruim não somos independentes.